REPRESENTAÇÃO DAS PERSONALIDADES LITERÁRIAS RICARDO REIS/FERNANDO PESSOA E GRACILIANO RAMOS/CLÁUDIO MANOEL DA COSTA NOS ROMANCES O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS,DE JOSÉ SARAMAGO, E EM LIBERDADE, DESILVIANO SANTIAGO
Susanna Ramos Ventura – USP
A presente comunicação propõe-se a analisar comparativamente duas obras de ficção escritas na segunda metade do século XX: o romance O ano da morte de Ricardo Reis de autoria do escritor português José Saramago, publicado em 1984 e a ficção Em liberdade de autoria do escritor brasileiro Silviano Santiago, com publicação em 1981. Nosso objetivo hoje é delinear e analisar a representação das personalidades literárias Ricardo Reis/ Fernando Pessoa e Graciliano Ramos/ Cláudio Manoel da Costa nas obras em questão.
O ano da morte de Ricardo Reis apresenta-se escrito na forma romance, com narrador onisciente intruso, ou seja, um narrador em terceira pessoa, que tudo sabe da vida, ações e pensamentos dos personagens. Ademais, o narrador de O ano da morte de Ricardo Reis é crítico com relação aos personagens e aos acontecimentos ficcionais, tem claro posicionamento ideológico, além de se situar num tempo distinto da narrativa. O narrador parece estar situado num futuro distante da narração, de modo que não apenas sabe do destino da narrativa e de seus personagens, como também da marcha da História.
Em liberdade, classificado como ficção por seus editores e definido por seu autor como "prosa limite", apresenta-se escrito na forma diário, com narrador-protagonista.
O narrador em primeira pessoa de Em liberdade tem em comum com o narrador de O ano da morte de Ricardo Reis o posicionamento crítico e ideológico definidos. Embora, por se utilizar da forma diário, o narrador esteja mais limitado, sem a possibilidade de conhecer sequer o futuro próximo, a exposição do posicionamento de tal narrador-protagonista frente à sociedade em que vive e ao passado, que reinterpreta de maneira ficcional, equiparam-no, em termos de conhecimento de mundo, ao poderoso narrador onisciente intruso de O ano da morte de Ricardo Reis.
A respeito do papel representado pelo narrador nas duas obras, lembramos Walter Benjamin, pois os narradores assumem claramente o papel não apenas de conselheiros do leitor, mas também de “guias” dentro do universo que constitui a História do período em que se desenrolam as obras. Benjamin alertava para a diminuição da habilidade da transmissão oral ou escrita da experiência, num tempo em que “não temos conselhos a dar, nem a nós mesmos, nem aos outros”, e onde, continuando a ouvir o teórico: “ ‘dar conselho’ significa muito menos responder a uma pergunta do que fazer uma proposta sobre a continuidade de uma estória que neste instante está a se desenrolar”. E a história que irá se desenrolar será a da revisitação de quatro personalidades do mundo literário, onde os nossos narradores terão, sim, interessantes propostas e questionamentos a nos fazer.
Comecemos pelo romance O ano da morte de Ricardo Reis quepronuncia, em seu título, uma sentença: a morte de Ricardo Reis.
Sim, se trata do Ricardo Reis esperado, o heterônimo de Fernando Pessoa. O romance se inicia na viagem de Ricardo Reis, que regressa a Portugal . Estamos no final de 1935 e ele está à bordo de um navio inglês que atraca em Lisboa onde, em seguida, Reis se instala num hotel, o Bragança. Tem quarenta e oito anos e chega à sua pátria nos últimos dias do ano, pouco depois da morte de seu criador, Fernando Pessoa. Reis sabe da morte de Pessoa, pois o heterônimo Álvaro de Campos avisou-o no Brasil através de um telegrama.
Devidamente instalado, Ricardo Reis vai aos arquivos dos jornais ler o que se escreveu sobre a morte de Pessoa. Em seguida, vai ao cemitério, visitar a campa de Pessoa. Na madrugada do primeiro dia de 1936, ao regressar ao hotel Ricardo Reis encontra Fernando Pessoa em seu quarto. A este encontro se seguirão outros oito, enquanto Reis viverá “o espetáculo do mundo” que se apresenta no ano de 1936. Ele encontrará Lídia, não a musa de suas Odes, mas a criada do hotel, iniciando com ela um relacionamento. Também encontra no hotel uma jovem hóspede, Marcenda, com quem mantém um curto relacionamento. Durante oito meses Reis irá amar, ler, trabalhar, andar por Lisboa, até que, finalmente, termine por acompanhar seu criador, Fernando Pessoa, ao mundo dos mortos.
Vejamos, primeiramente, a representação de Ricardo Reis e Fernando Pessoa que nos foi legada pelo próprio Pessoa e pela recepção crítica à sua obra:
Pessoa, na famosa carta de 13 de janeiro de 1935 dirigida a Adolfo Casais Monteiro, fala sobre a gênese dos heterônimos. Aí temos as seguintes informações sobre Ricardo Reis: nasceu no Porto em 1887, foi educado em colégio de jesuítas, é médico e vive, desde 1919, no Brasil, onde se "expatriou espontâneamente por ser monárquico".
Além disso, na obra dos heterônimos, descobrimos Ricardo Reis como discípulo de Alberto Caeiro (prefaciando O guardador de rebanhos) e conhecido de Álvaro de Campos (a quem foi apresentado pelo mesmo Caeiro).
Como analisa Maria Lúcia dal Farra, "Reis não se inclina à poética de um, nem à do outro, por lhes encontrar restrições em face de suas profundas convicções, das quais não abdica", criticando em Caeiro "a ausência de "disciplina exterior", a "escolha do verso livre dos modernos", a escravidão a certos apetrechos sentimentais da mentalidade cristista" e, ainda, a qualidade que, segundo Reis, mais escasseia em Caeiro: "a coragem de sacrificar o que se faz".
Já Álvaro de Campos é bem mais veementemente criticado : " Deplora nele, sobretudo, o extravasamento emotivo" argumentando que o transbordamento da emoção é nocivo para a poesia porque relega a idéia a um lugar subalterno. Diz o próprio Reis "o homem – poeta ou não poeta – em quem a emoção domina a inteligência, recua a feição do seu ser a estádios anteriores de evolução, em que as faculdades de inibição dormiam ainda no embrião da mente."
Fernando Pessoa teve em vida uma mínima parcela de sua obra publicada, e até hoje ainda não se tem a publicação de grande parte dela. Disso resultou que, durante muitos anos, pairasse sobre sua figura uma certa ambigüidade no que tange a seu posicionamento político. Se em 1928, Pessoa escreveu "O Interregno", panfleto em que defende e justifica a ditadura em Portugal, ao final de sua vida, já no ano de 1935, Pessoa traça um retrato cru da ditadura e do ditador Salazar, dizendo sobre o cerceamento à liberdade do escritor: "Até aqui a Ditadura não tinha tido o impudor de, renegando toda a verdadeira política do espírito – isto é, o de pôr o espírito acima da política – vir intimar quem pensa a que pense pela cabeça do Estado, que a não tem, ou de vir as intimar a quem trabalha e que trabalhe livremente como lhe mandam". No entanto, ficou mais marcada a imagem de Pessoa como personalidade que pouco se posicionou politicamente, que inscreveu Mensagem no concurso literário promovido pela ditadura salazarista. Apenas recentemente, com a catalogação da imensa obra deixada pelo poeta, foram encontrados os textos de 1935 e está sendo lenta a mudança de ótica sobre o posicionamento político de Pessoa.
Agora passemos à representação literária em que José Saramago transforma as personalidades literárias Fernando Pessoa e Ricardo Reis em personagens de ficção:
No romance, Reis é descrito como "espectador do espetáculo do mundo", como o verso de uma de suas odes. Mas o mundo não é o do arcadismo e sim o da conturbada Europa do momento pré-Segunda Guerra Mundial, e Reis mostra-se alienado, incapaz de ação e de perceber a realidade, optando por fim em retirar-se deste mundo onde não é possível a atitude de mero espectador.
Já Pessoa no romance adquire uma super-consciência política que parece acentuada pela circunstância de estar morto. Ele faz coro ao ácido narrador do romance, e, tenta de todas as maneiras fazer com que Reis entenda em que mundo está realmente vivendo e atuando. Assim sendo, o Pessoa-personagem critica abertamente o governo, a falta de posicionamento político-ideológico de Reis, sua inabilidade para ler as entrelinhas do discurso oficial que domina os meios de comunicação.
Em liberdade também nos faz um anúncio em seu título, o do exercício da liberdade por alguém. Este alguém é o escritor Graciliano Ramos, saído do cárcere nos primeiros dias do ano de 1937. O texto é apresentado como um diário do escritor Graciliano Ramos, que o teria confiado a um amigo, recomendando posteriormente a sua destruição. Graciliano Ramos falece e o amigo não segue sua recomendação. Anos depois, ele falece, não sem antes enviar os originais a um professor de literatura, Silviano Santiago. O diário é então publicado. Por ele nos inteiramos dos primeiros dias de Graciliano Ramos em liberdade. Sua esposa vai buscá-lo à porta da Casa de Detenção no Rio de Janeiro e os dois passam a viver como hóspedes na casa do escritor José Lins do Rego. Acompanhamos a retomada da vida de homem livre de Graciliano Ramos e seus embates com a sua precária saúde e situação financeira. Sua esposa parte para Maceió, onde deverá vender a casa que possuem e decidir sobre o destino dos filhos de ambos. Graciliano muda-se para uma pensão no Catete e reinicia sua vida como escritor. Após um sonho, começa a trabalhar numa história sobre o inconfidente Cláudio Manuel da Costa. Realizada a releitura da história de Cláudio, Graciliano parte em busca de sua esposa, que regressa de Maceió com suas duas filhas menores.
Vejamos, primeiramente, a representação de Graciliano Ramos que nos foi deixada pela recepção crítica à sua obra:
Graciliano Ramos foi reconhecido em vida como um grande escritor. Pertencente à geração que, nas décadas de 30 e 40 traçou um retrato do Brasil e dos brasileiros em suas diferentes características sociais e regionais, Graciliano manteve-se por toda a vida fiel às suas convicções e posições pessoais, enfrentando, pelo conteúdo de sua obra, o poder de repressão da Ditadura do Estado Novo. Consagrado por crítica e público, deixou a imagem do escritor socilamente responsável, fiel a seus posicionamentos, pessimista ao mostrar as mazelas do ser humano na sociedade brasileira.
Já a imagem que temos de Cláudio Manoel da Costa foi a deixada pela História Oficial, que nos conta que o Inconfidente, poeta, jurista e homem público de destaque, uma vez no cárcere, denunciou os companheiros de revolta, suicidando-se após assinar sua delação/confissão. Esta imagem nebulosa de suposto traidor vem sendo reabilitada aos poucos, a custo, juntamente com sua obra poética de indiscutível valor, por pesquisadores e escritores.
Passemos à representação ficcional de Graciliano Ramos/ Claudio Manoel da Costa na ficção de Silviano Santiago:
Na ficção de Silviano Santiago, Graciliano é retomado como o escritor consciente de seu papel social que, saído da prisão, reorganiza sua vida e seu trabalho. Sua preocupação, além da própria sobrevivência, é com a qualidade de seu trabalho e com o impacto que este terá sobre o leitor. Há um cuidado muito grande com o leitor do texto do diário que escreve. Não apenas o personagem traz o leitor para dentro do texto, mas também atua contra ele, abalando suas convicções, afirmando que age contra o leitor e contra suas expectativas. A retomada de seu trabalho ficcional dentro da ficção que já é o diário que escreve, se dá através da revisão dos últimos dias de Cláudio Manoel da Costa, revendo conjuntamente, o papel do intelectual brasileiro em épocas de repressão.
Cláudio Manoel da Costa é então transformado em personagem e reabilitado em seu real papel de idealizador da Inconfidência Mineira. Vítima do poder do colonizador, que não deseja a independência e sufoca o movimento, matando Tiradentes às claras e Cláudio nos subterrâneos da prisão, não sem antes forjar um documento de delação, onde Cláudio teria confessado seus crimes e denunciado os outros inconfidentes.
Concluímos que as representações das personalidades literárias Ricardo Reis/Fernando Pessoa e Graciliano Ramos/ Cláudio Manoel da Costa apontam-nos para o projeto de escrita dos autores José Saramago e Silviano Santiago, na medida em que a figura do escritor aparece como relevante socialmente e responsável pela exposição da realidade em suas obras.
José Saramago, em entrevista a Álvaro Cardoso Gomes, responde à questão do porquê escolhera dialogar com Fernando Pessoa através da reinvenção de seu heterônimo Ricardo Reis:
“Acima de tudo, razões pessoais, extraliterárias. O meu primeiro Pessoa foi Reis, eram de Reis os primeiros poemas que li de Pessoa, e a impressão que eles me causaram, fortíssima, perdurou por muitos anos. Mas a indiferença de Reis em relação aos fatos sociais e políticos, em relação à sociedade dos homens, sempre me irritou, digamos que tentei resolver este conflito no Ano da morte”.
Assim sendo, em seu romance, José Saramago nos diz que o papel do escritor e da escrita não são contentar-se com o espetáculo do mundo e sim vivê-lo, participando dele.
E terminamos a nossa fala com Silviano Santiago que responde em entrevista a Carlos Henrique Santiago, sobre o fato de haver escolhido Graciliano Ramos para personagem:
Porque queria que a tensão dramática do livro girasse em torno da questão do intelectual e o poder. Queria, ainda, que o problema não fosse visto da perspectiva linear da História. A situação de Graciliano em 37 seria o ponto de intersecção de uma linha que vinha do passado (o ‘suicídio”de Cláudio Manoel da Costa); e outra que vinha do futuro (o caso Herzog). No ponto se concensa a reflexão sobre a atuação do intelectual brasileiro em períodos de regime autoritário e conservador.